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             Aquele filete rosa

                no fim da tarde sublinhando as montanhas

                                     eram restos

                                  eram meus.

 

Aquele ramalhete de rosas

no fim da tarde murchando estranha

eram desafetos

eram eus.

 

Aquele lembrete em prosa

  que no fim me arde as entranhas

eram só versos

sempre

                              eu disse sempre teus.

 

A defunta

 

Por um cobertor de mármore

Tua friagem sossega, repousa

E sequer fruto dá no alto da árvore

Onde um insólito urubu ali pousa.

Mas se espanta pelos fétidos odores

E foge além dos portões de pedra

Enquanto coagula um sangue podre

Por teu peito, braço e perna

Se espalhando pelo ataúde

Como vermes que te furam a retina

Aspirando de tua saúde

O resto de tua carniça.

Quem sabe a noite tenha roubado as estrelas para si

                      ou só estão às sombras de uma nuvem

 

                 seja onde estiverem, adormecidas

                 creio: elas voltam, sempre vem

                         me enxugam os olhos                                   

              me dizem olá, tudo bem                

 

 

                                                                   …

 

 

         Mas a noite, passando, vira dia

                        e me vou parecendo nua

                                                         lua

                                sem as estrelas

                                       sozinha.

Um tecido branco

               no entanto

         não sei…

 

                   na verdade já desconheço

                             cheiros e rostos

                             despercebo os tatos, os gostos

                                       não sei…

 

                   já desconheço as mágoas

                             não as sei…

      e como gelo sobre água

                  era um corpo

                           evaporei…

 

Quando eu me esconder cintilante sobre o firmamento

                                               desdiga o adeus.

 

                           Guarde os lenços e

                        lembre que a graça no sofrimento

                               está em sê-lo graça, risos meus

 

         E lembre de admirar as nuvens celestinas

                                        sabendo que a linha pintada no céu

                                              que parte detrás das colinas

                                                             depois da chuva 

                                          poderá ser meu sorriso

                                                em sete cores

                                                                         uma

                                                                                     a

                                                                                           uma.

sobre a trovoada

              de verão

              os que viverem

              sobreviverão

 

Quando Alegria ouviu seu coração

 

            Depois de muito tempo, Alegria decidiu ouvir seu coração.

 

Pensei que fosse surda… – disse o coração boquiaberto.

Assim sempre me pareci, coração, como se nunca ouvisse o que estava dentro de mim e…

E… estou dentro de você? – interrompeu o coração.

Pela primeira vez, acho que sim – respondeu Alegria, juntando suas pálpebras aos olhos semimarejados.

 

            Não era de se espantar a tamanha timidez de Alegria ao mirar nos olhos de seu coração, afinal, ela sequer o conhecia direito. Parecia conhecer ele como conhece aquele seu primo distante, lá da cidade, que quando faz visita, tenta uma conversa sobre vídeo-games, desenhos japoneses e carrinhos hot wheels, tão diferentes de Alegria, acostumada ao cheiro do esterco pelo gramado e do café pela manhã. Assim como seu primo, quando seu coração começasse a falar, Alegria sabia que ouviria o que nunca conheceu.

 

            Alegria, a dorzinha que você sente é sincera. E pode acreditar: a todo tempo estive sentindo o mesmo por você – disse o coração, enxugando com os dedos a primeira lágrima que começava a escorrer pela face de Alegria.

            Não quero acreditar que é sincera, coração. Sinceramente, nunca quis a dor como sentimento. E o pior é que ela parece invisível. Se ao menos a visse, aposto que, apesar de sentir uma ardidinha no começo, o mertiolate faria passar e…

            Remédios foram feitos para curar doenças – interrompeu outra vez, coração.

            E por que ainda não curaram a diabete, o câncer?

            Porque, como a diabete e o câncer, a paixão não tem cura, Alegria.

            Então não quero mais me apaixonar. E o que faço agora, coração, me desapaixono?

            Agora que você me ouve, eu é que pergunto: se se desapaixonares, o que será do seu coração?

 

            Alegria enxugou com a manga da camisa a terceira lágrima que começava a escorrer. Sentiu um afeto estranho pelo seu novo amigo falante e seguiu a andar com respiros leves. Respiros como se tivessem combinados com mesma leveza do pulsar de seu coração.


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas

Ora, por que?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porquês. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Por isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porquês, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porquê.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porquês. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porquê. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porquê.

Quem

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

O que é Haikai?

O haicai é um pequeno poema composto por três versos, surgido no Japão do século XVI. Na escrita do poema em português, aceita-se de 17 à 21 sílabas.

O que passou…

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tiago.ribeiros@terra.com.br