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Lázaro e o Pássaro
(final – continuação da parte III daqui)

 

            Nunca pensei que um dia isso fosse acontecer. Mas, antes de contar o final, meu leitor, faço o favor como bom contador de esmiuçar cada passo de Lázaro, desde que se propôs em levantar. Por entre seus pés, aquele mesmo chinelo e, por entre suas mãos, aquele mesmo café. Companheiros inseparáveis, miseráveis, de todo o tempo desperdiçado antes de chegar até o ponto final que prometi contar. E vamos porque o tempo é curto, tenho fome e quero jantar.

 

            Afastando a nádega quente da cadeira, Lázaro caminhou com esmero até seu pássaro e, calado feito o próprio pássaro, estalou os dedos como quem quisesse cantar. E queria. Mas o pássaro, de bico lacrado, padecido, deslembrava o fiel cantador que em outros verões já tinha sido. E agora, com quem Lázaro se animaria se até seu fiel amigo, o mais antigo, parecia ter desaprendido as falas de como cantar? Qual a causa de parecer perder um outro filho?

 

            Sem entender, Lázaro se lembrava que, ao pássaro, jamais mandou que se calasse. Nunca o feriu como feriu a esposa. Nunca o deixara ver bêbado, imundo, pela garagem, já que era na sala, por dentro de um móvel velho, que se escondia seu arsenal de beberagem. Queria poder entender tudo isso: o injusto e o esquisito. Mas, como disse bem antes: os porquês disso Lázaro não queria acreditar mas, em sua cabeça, já sabia.

 

            Gostaria de ter do meu lado, o cara do ditado ‘os homens não choram’, porque assim ele não diria tamanha asneira. O choro de Lázaro não era um choramingar de menino, era de homem mesmo, daqueles que se fazem pelo canto, escondido. E por que lacrimejava? Primeiro porque tinha olhos, outro: porque ainda acreditava na volta da família como um sonho.

 

            E decidiu que iria na busca deste sonho, nem que precisasse aprender a voar. Pensou que talvez seu pássaro desaprendesse a cantar, mas, como bom voador, nunca desaprendera o bater de asas que o poderiam fazer planar. Abrindo a gaiola, torceu para que o bicho alado ainda soubesse voar. De portas abertas, parecendo ainda enjaulado, o pássaro desandou. Virou o pescocinho pros lados, mas, como quem se desacostuma com um espaço, bateu as penas e voou.

 

 

            Até esta parte é tudo o que vi. Agora, de que Lázaro havia perdido um pássaro que mais parecia filho, isso, ele que me contou. E ainda me disse mais: disse que, imaginando o voar de seu filho, pela primeira vez se sentia como um pai.

Lázaro e o Pássaro

(Continuação da Parte II daqui)

 

            Tive a impressão que, naquele dia, o ponteiro mais graúdo do relógio custava a passar. Se assim me parecia, imagine para Lázaro. Pouco me espantava que suas funções rotineiras a cada manhã se confundiam às tardes de domingo, sempre iguais, melancólicas e alcoólicas, com qualquer outro dia da semana. E aposto até o que não tenho: o empenho de Lázaro em tirar sua família da cabeça nunca funcionara direito.

 

            Desacomodado em sua cadeira de vime, daquelas que fazem estraladeiras ao se sentar, Lázaro não tivera o que fazer se não mirar seu pássaro. E pensara, ali, ainda mais na família que perdera. Tristeza. Mesmo assim, alegria: nem todos detinham um pássaro amarelo, tão belo, como companhia. Mas Lázaro percebia que, aquele canto gracioso, aos poucos, não era mais tão ritmado como foi um dia, talvez até ontem, que mudara ligeiro pra hoje.

           

            Os assovios se abafavam enquanto Lázaro achara disso normalidades da natureza. Afinal, pássaros são só pássaros e as vezes são até como gente: um dia acordam cansados, outro dia contentes. A explicação parecia simples, mas não. O sofrimento de Lázaro ao perder uma família carecia da lição: só se canta feliz na vida, quem das notas compõe a melodia. E sobre notas, disso Lázaro bem sabia.

 

            O Sol de sua vida, sua filha, não brilhara mais do seu lado. Para ele, sua esposa desconhecia a Dó, deixando nele o vácuo, o nada dentro de Si. Seja onde estivesse a felicidade, Lá ou em qualquer lugar, Lázaro sabia que, sozinho, não pudera alcançar. Mas olhando o pássaro, ele sabia que a maior ato de um pai ele podia fazer. Bastava se levantar.

 

Termina em 15 de março

 

Lázaro e o pássaro
(Continuação deste link aqui)

 

 

            Chiiit… bico calado: ninguém sabe mas, a esposa de Lázaro que inda nem sei se é, já foi moça de dormir no meu quarto. Isso lá na mocidade, quando até montinho de mato se chamava de leito. Eu inda moço. Ela dum jeito mais vivida, panca de mulherão em joviais vinte primaveras floridas. Ah, era também como se fosse flor, cheirosa, cheia dos dengos, mas madura e pouco beijoqueira. Recatada. Não qu’eu inda a queira, isso é besteira. Mas a essas horas, só me vem as melhores lembranças, pois tenho direito, oras… E dela voltar, não guardo esperanças. Então, de nossas peraltices melhor digo noutro dia. Hoje, é sobre seu outro ex-esposo, Lázaro, essa meia prosa e meia poesia. A minha já disse: fica pr’outro dia.

 

            Da janela que o via, não se ouvia outro tagarelar se não o daquele tal passarinho. Lázaro gostava do canto, apesar de no entanto não ter a quem contar. Se aproximava da gaiola a passo manso, nas pontas da unhas dos pés se preciso, para não assustar o bicho arisco. E chegava perto, pertinho, pertíssimo, vislumbrando as cores das asas coloridas. Um amarelo cor de gema corria da cabeça ao rabo penoso. Um raio de sol tem quem diria sobre aquele filete amarelado. Por outro lado, as asas brancas, há quem confundira com as nuvens se voasse. Mas na jaula, parado, não me assombra quem dissesse de suas asas um céu nublado.

 

            Mas seu cantar em tempo algum era tristonho. Quisera eu saber assoviar para mostrar a formosura daqueles sibilos, canções líricas sem rimas: notas uníssonas. E eram pelas manhãs que se pareciam de maior boniteza. À tarde, aquele poema sonoro não era de muito esmero. Mas não posso lhe queixar. Hóspede do cárcere, o pássaro, mesmo enclausurado, cantara, cantara e cantara. Seria tara do instinto? Indeciso, prefiro terminar a história de Lázaro que prometi e acabar logo com isso.

 

Continua em 5 de março.

Lázaro e o pássaro

 

             Disso eu bem sei, talvez: o dia de Lázaro mais uma vez amanhecera como ontem. Transeunte entre o quarto, cozinha, sala e garagem, ele repetira a mesma vassalagem sem obrigação. Fez café preto no coador deslavado, ligou o televisor velho e negro e sentou-se, zapeando pelos mesmos canais de todos os dias. Quando o eletrônico vitral, vital, o enjoava, Lázaro da poltrona se levantava e, deixando ali a quentura das nádegas, calçava os chinelos de pano surrado frente à porta. Seu caminhar, uma marcha torta pelos anos que passara mais sentado que ereto, o levava de dentro do casebrinho até fora.

 

            Mas fora, quem via, espirrava água do rosto a choramingar por dó. No teto da garagem, telhas malechas exibiam frestas que, como estas, grande só vi em racho de paiol. Um restolho de palha sobre o chão pudera ser os remendos do telhado mas, que nada, que nada: fiapos do ninho que alí morava um passarinho.

 

            Por alí, Lázaro alimentava seu cantador matutino, sem nome mesmo, um passarinho. Dentro da gaiola, ou castelo escuro, era capaz de assoviar de lá à sol mesmo em dias turvos. Mas, sobre o canto do pássaro, abafado, escondia-se o desencanto que fazia Lázaro pensar sobre seu estado de um homem sozinho e desamado. Seu olhar ingênuo, sob os fios esbranquiçados da sobrancelha, escondia passados incertos, desconexos e inversos a versos perfeitos de amor e poesia. Nem Camões e seu amor, nunca entenderiam. Eu, vizinho de portão, é quem sabia.

 

            A esposa fora embora de casa coberta de razão. Sem deixar a Lázaro o carro da família, a pão e farinha, ela prometera não voltar.  Suas manchas roxas, nas costas, nas coxas, poderiam se camuflar entre um campo de violetas: eram marcas que Lázaro deixara no corpo da esposa depois do primeiro e único ano de casado. O álcool lhe fazia macho, digno dos culhões entre as pernas, espaço aberto de para sua violência liberta. A mulher levara consigo sua filha, só sua, escondendo da inocência a mazela de ser fruto de pai desmerecido duma família.

           

            Mais uma vez o dia se repetia como ontem, anteontem. O amanhã como as lembranças de Lázaro de hoje, assim igual estes fatos que, como eu conto, peça aos vizinhos a mesma história que eles te contem. Mas, por ser eu o mais chegado nesse caso, não é por acaso: a história de Lazáro, melhor que eu, não há contador que conte.

           
            E que fique em segredo: continuo em 25 de fevereiro.

Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas

Ora, por que?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porquês. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Por isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porquês, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porquê.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porquês. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porquê. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porquê.

Quem

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

O que é Haikai?

O haicai é um pequeno poema composto por três versos, surgido no Japão do século XVI. Na escrita do poema em português, aceita-se de 17 à 21 sílabas.

O que passou…

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