Archive for the 'Dê um desconto: em vez de poesia: fiz um conto' Category

Ciranda

 

            Nunca falei sobre isso. Na verdade já tentei mas, quando começo a tocar no assunto, minhas pernas se bambeiam todas. Aliás, quem é você?

 

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            Estranho, com você aqui do meu lado elas ficaram paradinhas. Veja que nem minhas mãos começaram a suar. Parecem tão secas como se eu tivesse acabado de secá-las no paninho de louça de minha mãe. Falando nela, tadinha: nem sonha que estou aqui. Ela gosta que eu fique em casa, pensa que ainda sou mocinha e que só vou à casa das amigas pra estudar. Essa minha mãe…

 

* * *

 

            Não repara, não: às vezes eu fico em silêncio mesmo: é a insegurança. Deve ser porque você é mais velho do que eu, viveu tão mais. Pra você três anos não é muito? Eu acho que é. Nestes últimos anos não sei bem o que é viver. Sabe, tudo me parece muito novo, desconhecido, e cada lugar que conheço pela primeira vez, parece não ter chão porque simplesmente o desconheço.

           Ai, acho que dei um nó na sua cabeça. Vou ser mais direta: minhas amigas não escondem nada: falam de tudo, mesmo. Dizem onde deve se colocar a mão, a hora de parar um pouquinho e continuar. Dizem que o segredo está no cabelo. E o meu, aqui, cheirando à loçãozinha de bebê.

 

* * *

 

            Você tem paciência. Geralmente os caras não gostam de menina que enrola, minhas amigas é que também dizem isso. Elas acham que temos que ir direto ao ponto. Olha, acho que é aquela coisa: eu quero algo e você também quer, mas, nosso individualismo sempre acaba esperando pelo verbo receber. E tem mais, né: já disse que nunca falei sobre isso. Pra piorar, agora minhas pernas começaram mesmo a bambear. Não vou ter coragem, tá?

 

* * *

 

Hum… esse é o tal do beijo? Quero de novo…

 

 

Querido Diário, não consigo te contar minha história de hoje. Você precisaria estar do meu lado anotando tudinho. Só consigo lembrar, não escrever, porque foi inesquecível e acho que as palavras não dirão tudo o que senti. Mas, me responda, amanhã faço 13 anos, será que convido ele pra minha festinha? Vai ter brigadeiro…


Ciranda

Quando Alegria ouviu seu coração

 

            Depois de muito tempo, Alegria decidiu ouvir seu coração.

 

Pensei que fosse surda… – disse o coração boquiaberto.

Assim sempre me pareci, coração, como se nunca ouvisse o que estava dentro de mim e…

E… estou dentro de você? – interrompeu o coração.

Pela primeira vez, acho que sim – respondeu Alegria, juntando suas pálpebras aos olhos semimarejados.

 

            Não era de se espantar a tamanha timidez de Alegria ao mirar nos olhos de seu coração, afinal, ela sequer o conhecia direito. Parecia conhecer ele como conhece aquele seu primo distante, lá da cidade, que quando faz visita, tenta uma conversa sobre vídeo-games, desenhos japoneses e carrinhos hot wheels, tão diferentes de Alegria, acostumada ao cheiro do esterco pelo gramado e do café pela manhã. Assim como seu primo, quando seu coração começasse a falar, Alegria sabia que ouviria o que nunca conheceu.

 

            Alegria, a dorzinha que você sente é sincera. E pode acreditar: a todo tempo estive sentindo o mesmo por você – disse o coração, enxugando com os dedos a primeira lágrima que começava a escorrer pela face de Alegria.

            Não quero acreditar que é sincera, coração. Sinceramente, nunca quis a dor como sentimento. E o pior é que ela parece invisível. Se ao menos a visse, aposto que, apesar de sentir uma ardidinha no começo, o mertiolate faria passar e…

            Remédios foram feitos para curar doenças – interrompeu outra vez, coração.

            E por que ainda não curaram a diabete, o câncer?

            Porque, como a diabete e o câncer, a paixão não tem cura, Alegria.

            Então não quero mais me apaixonar. E o que faço agora, coração, me desapaixono?

            Agora que você me ouve, eu é que pergunto: se se desapaixonares, o que será do seu coração?

 

            Alegria enxugou com a manga da camisa a terceira lágrima que começava a escorrer. Sentiu um afeto estranho pelo seu novo amigo falante e seguiu a andar com respiros leves. Respiros como se tivessem combinados com mesma leveza do pulsar de seu coração.


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas

Ora, por que?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porquês. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Por isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porquês, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porquê.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porquês. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porquê. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porquê.

Quem

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

O que é Haikai?

O haicai é um pequeno poema composto por três versos, surgido no Japão do século XVI. Na escrita do poema em português, aceita-se de 17 à 21 sílabas.

O que passou…

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