Archive for the 'Cruz e Souzinianas' Category

A defunta

 

Por um cobertor de mármore

Tua friagem sossega, repousa

E sequer fruto dá no alto da árvore

Onde um insólito urubu ali pousa.

Mas se espanta pelos fétidos odores

E foge além dos portões de pedra

Enquanto coagula um sangue podre

Por teu peito, braço e perna

Se espalhando pelo ataúde

Como vermes que te furam a retina

Aspirando de tua saúde

O resto de tua carniça.

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Lábios

 

Córrego vermelho de atos

Sedutores carnais da luxúria

De carícias, suspiros e afagos

De esplendor prazer e ternura.

 

Músculos pares dos sabores,

Doces, frutíferos e suculentos

Se misturados à saliva de humores,

Do mais ébrio contentamento.

 

São macias carnes perduráveis,

Aos mais intensos mordiscos,

Irresistíveis às línguas penetráveis,

No silêncio do libidinoso sigilo.

 

Esse lar do gozo eterno, interino,

Desconhece por inteiro o casto,

Do afeto entre tuas coxas, os lábios,
Portais negros de fetos e filhos.

 

Aos lobos

 

Dentes atrozes se rangem,

De vorazes, cruéis, fiéis caninos,
Entes de espécies de dantes,

Dilaceradores de couros felinos.

 

E seus gritos à calada da noite,

Au, au, au… ecoam de precipícios,

Pudera ser dor visceral de açoites?

Não, não e não… cantos de suplícios.

 

Os restos dividem entre abutres

Até que o podre, seco, vire vazio

Mas em fila com marchas fúnebres

Felicitam desjejum em uivos sombrios.

 

E magros até que se vejam as costelas,

Lobos da fome vácua, pungente,

São assassinos da própria alcatéia,

Se não comedores de outra gente.

Procura

 

Na excrescência dum sepulcro aterro,

Cavaste o teu deitar de descanso,

Para o sono dum eterno desassossego,

Na incandescência de outro plano.

 

E caíste abaixo da terra, da lama,

Sobre os espetos que dizem nos livros

Ardente entre claras chamas

Quando disse em teu ouvido:

 

Procuras, mas não te vá,

Veja, seja verão ou inverno,

Calor mórbido de lá,

É hoje teu sórdido inferno, inferno e inferno!

 

 

(Inspirada na obra Broquéis do poeta catarinense Cruz e Souza)

 

 

 

 


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas

Ora, por que?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porquês. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Por isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porquês, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porquê.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porquês. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porquê. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porquê.

Quem

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

O que é Haikai?

O haicai é um pequeno poema composto por três versos, surgido no Japão do século XVI. Na escrita do poema em português, aceita-se de 17 à 21 sílabas.

O que passou…

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