Arquivo para abril \29\UTC 2009

as favas

um coração

        falava

                e

            di

                 va

                       ga

                              va.

 

      seus pés corriam pela estrada

              ganhavam o mundo.

 

                          pensei, ora: que absurdo

                                     se isso é amor

                         vivo e morro

                              mas não vejo tudo.

                            sisudo

                 vou fazendo da mísera

                                                     poesia

                                           as vísceras

                                  de um poeta miúdo.

Ciranda

 

            Nunca falei sobre isso. Na verdade já tentei mas, quando começo a tocar no assunto, minhas pernas se bambeiam todas. Aliás, quem é você?

 

* * *

 

            Estranho, com você aqui do meu lado elas ficaram paradinhas. Veja que nem minhas mãos começaram a suar. Parecem tão secas como se eu tivesse acabado de secá-las no paninho de louça de minha mãe. Falando nela, tadinha: nem sonha que estou aqui. Ela gosta que eu fique em casa, pensa que ainda sou mocinha e que só vou à casa das amigas pra estudar. Essa minha mãe…

 

* * *

 

            Não repara, não: às vezes eu fico em silêncio mesmo: é a insegurança. Deve ser porque você é mais velho do que eu, viveu tão mais. Pra você três anos não é muito? Eu acho que é. Nestes últimos anos não sei bem o que é viver. Sabe, tudo me parece muito novo, desconhecido, e cada lugar que conheço pela primeira vez, parece não ter chão porque simplesmente o desconheço.

           Ai, acho que dei um nó na sua cabeça. Vou ser mais direta: minhas amigas não escondem nada: falam de tudo, mesmo. Dizem onde deve se colocar a mão, a hora de parar um pouquinho e continuar. Dizem que o segredo está no cabelo. E o meu, aqui, cheirando à loçãozinha de bebê.

 

* * *

 

            Você tem paciência. Geralmente os caras não gostam de menina que enrola, minhas amigas é que também dizem isso. Elas acham que temos que ir direto ao ponto. Olha, acho que é aquela coisa: eu quero algo e você também quer, mas, nosso individualismo sempre acaba esperando pelo verbo receber. E tem mais, né: já disse que nunca falei sobre isso. Pra piorar, agora minhas pernas começaram mesmo a bambear. Não vou ter coragem, tá?

 

* * *

 

Hum… esse é o tal do beijo? Quero de novo…

 

 

Querido Diário, não consigo te contar minha história de hoje. Você precisaria estar do meu lado anotando tudinho. Só consigo lembrar, não escrever, porque foi inesquecível e acho que as palavras não dirão tudo o que senti. Mas, me responda, amanhã faço 13 anos, será que convido ele pra minha festinha? Vai ter brigadeiro…


Ciranda

                         talvez hoje eu partisse

                   subtraindo corpo a um espírito

                                             vago.

 

                        mas, inda antes, teria dito

                                         mesmo mudo

                                                  tudo

                                                     em vozes de afago.

 

                         inda bem antes, pela última vez

                                      meus dedos seriam pentes

                             em teus  cabelos para que, de repente

                                        você sorrisse, talvez.

 

                                  quem sabe mesmo hoje eu me vá

                                          afinal, envelheço

                                       sou natural

                               como orvalho formando bolhas

                          mas que não serão de água

                                serão lágrimas

                                         e meus olhos

                                                      as folhas.

             Aquele filete rosa

                no fim da tarde sublinhando as montanhas

                                     eram restos

                                  eram meus.

 

Aquele ramalhete de rosas

no fim da tarde murchando estranha

eram desafetos

eram eus.

 

Aquele lembrete em prosa

  que no fim me arde as entranhas

eram só versos

sempre

                              eu disse sempre teus.

 

A defunta

 

Por um cobertor de mármore

Tua friagem sossega, repousa

E sequer fruto dá no alto da árvore

Onde um insólito urubu ali pousa.

Mas se espanta pelos fétidos odores

E foge além dos portões de pedra

Enquanto coagula um sangue podre

Por teu peito, braço e perna

Se espalhando pelo ataúde

Como vermes que te furam a retina

Aspirando de tua saúde

O resto de tua carniça.


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas

Ora, por que?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porquês. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Por isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porquês, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porquê.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porquês. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porquê. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porquê.

Quem

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

O que é Haikai?

O haicai é um pequeno poema composto por três versos, surgido no Japão do século XVI. Na escrita do poema em português, aceita-se de 17 à 21 sílabas.

O que passou…

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tiago.ribeiros@terra.com.br