Lázaro e o Pássaro

(Continuação da Parte II daqui)

 

            Tive a impressão que, naquele dia, o ponteiro mais graúdo do relógio custava a passar. Se assim me parecia, imagine para Lázaro. Pouco me espantava que suas funções rotineiras a cada manhã se confundiam às tardes de domingo, sempre iguais, melancólicas e alcoólicas, com qualquer outro dia da semana. E aposto até o que não tenho: o empenho de Lázaro em tirar sua família da cabeça nunca funcionara direito.

 

            Desacomodado em sua cadeira de vime, daquelas que fazem estraladeiras ao se sentar, Lázaro não tivera o que fazer se não mirar seu pássaro. E pensara, ali, ainda mais na família que perdera. Tristeza. Mesmo assim, alegria: nem todos detinham um pássaro amarelo, tão belo, como companhia. Mas Lázaro percebia que, aquele canto gracioso, aos poucos, não era mais tão ritmado como foi um dia, talvez até ontem, que mudara ligeiro pra hoje.

           

            Os assovios se abafavam enquanto Lázaro achara disso normalidades da natureza. Afinal, pássaros são só pássaros e as vezes são até como gente: um dia acordam cansados, outro dia contentes. A explicação parecia simples, mas não. O sofrimento de Lázaro ao perder uma família carecia da lição: só se canta feliz na vida, quem das notas compõe a melodia. E sobre notas, disso Lázaro bem sabia.

 

            O Sol de sua vida, sua filha, não brilhara mais do seu lado. Para ele, sua esposa desconhecia a Dó, deixando nele o vácuo, o nada dentro de Si. Seja onde estivesse a felicidade, Lá ou em qualquer lugar, Lázaro sabia que, sozinho, não pudera alcançar. Mas olhando o pássaro, ele sabia que a maior ato de um pai ele podia fazer. Bastava se levantar.

 

Termina em 15 de março

 

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São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas

Ora, por que?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porquês. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Por isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porquês, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porquê.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porquês. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porquê. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porquê.

Quem

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

O que é Haikai?

O haicai é um pequeno poema composto por três versos, surgido no Japão do século XVI. Na escrita do poema em português, aceita-se de 17 à 21 sílabas.

O que passou…

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