Arquivo para março \29\UTC 2009

Quem sabe a noite tenha roubado as estrelas para si

                      ou só estão às sombras de uma nuvem

 

                 seja onde estiverem, adormecidas

                 creio: elas voltam, sempre vem

                         me enxugam os olhos                                   

              me dizem olá, tudo bem                

 

 

                                                                   …

 

 

         Mas a noite, passando, vira dia

                        e me vou parecendo nua

                                                         lua

                                sem as estrelas

                                       sozinha.

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Um tecido branco

               no entanto

         não sei…

 

                   na verdade já desconheço

                             cheiros e rostos

                             despercebo os tatos, os gostos

                                       não sei…

 

                   já desconheço as mágoas

                             não as sei…

      e como gelo sobre água

                  era um corpo

                           evaporei…

 

Quando eu me esconder cintilante sobre o firmamento

                                               desdiga o adeus.

 

                           Guarde os lenços e

                        lembre que a graça no sofrimento

                               está em sê-lo graça, risos meus

 

         E lembre de admirar as nuvens celestinas

                                        sabendo que a linha pintada no céu

                                              que parte detrás das colinas

                                                             depois da chuva 

                                          poderá ser meu sorriso

                                                em sete cores

                                                                         uma

                                                                                     a

                                                                                           uma.

sobre a trovoada

              de verão

              os que viverem

              sobreviverão

 

Quando Alegria ouviu seu coração

 

            Depois de muito tempo, Alegria decidiu ouvir seu coração.

 

Pensei que fosse surda… – disse o coração boquiaberto.

Assim sempre me pareci, coração, como se nunca ouvisse o que estava dentro de mim e…

E… estou dentro de você? – interrompeu o coração.

Pela primeira vez, acho que sim – respondeu Alegria, juntando suas pálpebras aos olhos semimarejados.

 

            Não era de se espantar a tamanha timidez de Alegria ao mirar nos olhos de seu coração, afinal, ela sequer o conhecia direito. Parecia conhecer ele como conhece aquele seu primo distante, lá da cidade, que quando faz visita, tenta uma conversa sobre vídeo-games, desenhos japoneses e carrinhos hot wheels, tão diferentes de Alegria, acostumada ao cheiro do esterco pelo gramado e do café pela manhã. Assim como seu primo, quando seu coração começasse a falar, Alegria sabia que ouviria o que nunca conheceu.

 

            Alegria, a dorzinha que você sente é sincera. E pode acreditar: a todo tempo estive sentindo o mesmo por você – disse o coração, enxugando com os dedos a primeira lágrima que começava a escorrer pela face de Alegria.

            Não quero acreditar que é sincera, coração. Sinceramente, nunca quis a dor como sentimento. E o pior é que ela parece invisível. Se ao menos a visse, aposto que, apesar de sentir uma ardidinha no começo, o mertiolate faria passar e…

            Remédios foram feitos para curar doenças – interrompeu outra vez, coração.

            E por que ainda não curaram a diabete, o câncer?

            Porque, como a diabete e o câncer, a paixão não tem cura, Alegria.

            Então não quero mais me apaixonar. E o que faço agora, coração, me desapaixono?

            Agora que você me ouve, eu é que pergunto: se se desapaixonares, o que será do seu coração?

 

            Alegria enxugou com a manga da camisa a terceira lágrima que começava a escorrer. Sentiu um afeto estranho pelo seu novo amigo falante e seguiu a andar com respiros leves. Respiros como se tivessem combinados com mesma leveza do pulsar de seu coração.

Lázaro e o Pássaro
(final – continuação da parte III daqui)

 

            Nunca pensei que um dia isso fosse acontecer. Mas, antes de contar o final, meu leitor, faço o favor como bom contador de esmiuçar cada passo de Lázaro, desde que se propôs em levantar. Por entre seus pés, aquele mesmo chinelo e, por entre suas mãos, aquele mesmo café. Companheiros inseparáveis, miseráveis, de todo o tempo desperdiçado antes de chegar até o ponto final que prometi contar. E vamos porque o tempo é curto, tenho fome e quero jantar.

 

            Afastando a nádega quente da cadeira, Lázaro caminhou com esmero até seu pássaro e, calado feito o próprio pássaro, estalou os dedos como quem quisesse cantar. E queria. Mas o pássaro, de bico lacrado, padecido, deslembrava o fiel cantador que em outros verões já tinha sido. E agora, com quem Lázaro se animaria se até seu fiel amigo, o mais antigo, parecia ter desaprendido as falas de como cantar? Qual a causa de parecer perder um outro filho?

 

            Sem entender, Lázaro se lembrava que, ao pássaro, jamais mandou que se calasse. Nunca o feriu como feriu a esposa. Nunca o deixara ver bêbado, imundo, pela garagem, já que era na sala, por dentro de um móvel velho, que se escondia seu arsenal de beberagem. Queria poder entender tudo isso: o injusto e o esquisito. Mas, como disse bem antes: os porquês disso Lázaro não queria acreditar mas, em sua cabeça, já sabia.

 

            Gostaria de ter do meu lado, o cara do ditado ‘os homens não choram’, porque assim ele não diria tamanha asneira. O choro de Lázaro não era um choramingar de menino, era de homem mesmo, daqueles que se fazem pelo canto, escondido. E por que lacrimejava? Primeiro porque tinha olhos, outro: porque ainda acreditava na volta da família como um sonho.

 

            E decidiu que iria na busca deste sonho, nem que precisasse aprender a voar. Pensou que talvez seu pássaro desaprendesse a cantar, mas, como bom voador, nunca desaprendera o bater de asas que o poderiam fazer planar. Abrindo a gaiola, torceu para que o bicho alado ainda soubesse voar. De portas abertas, parecendo ainda enjaulado, o pássaro desandou. Virou o pescocinho pros lados, mas, como quem se desacostuma com um espaço, bateu as penas e voou.

 

 

            Até esta parte é tudo o que vi. Agora, de que Lázaro havia perdido um pássaro que mais parecia filho, isso, ele que me contou. E ainda me disse mais: disse que, imaginando o voar de seu filho, pela primeira vez se sentia como um pai.

Lázaro e o Pássaro

(Continuação da Parte II daqui)

 

            Tive a impressão que, naquele dia, o ponteiro mais graúdo do relógio custava a passar. Se assim me parecia, imagine para Lázaro. Pouco me espantava que suas funções rotineiras a cada manhã se confundiam às tardes de domingo, sempre iguais, melancólicas e alcoólicas, com qualquer outro dia da semana. E aposto até o que não tenho: o empenho de Lázaro em tirar sua família da cabeça nunca funcionara direito.

 

            Desacomodado em sua cadeira de vime, daquelas que fazem estraladeiras ao se sentar, Lázaro não tivera o que fazer se não mirar seu pássaro. E pensara, ali, ainda mais na família que perdera. Tristeza. Mesmo assim, alegria: nem todos detinham um pássaro amarelo, tão belo, como companhia. Mas Lázaro percebia que, aquele canto gracioso, aos poucos, não era mais tão ritmado como foi um dia, talvez até ontem, que mudara ligeiro pra hoje.

           

            Os assovios se abafavam enquanto Lázaro achara disso normalidades da natureza. Afinal, pássaros são só pássaros e as vezes são até como gente: um dia acordam cansados, outro dia contentes. A explicação parecia simples, mas não. O sofrimento de Lázaro ao perder uma família carecia da lição: só se canta feliz na vida, quem das notas compõe a melodia. E sobre notas, disso Lázaro bem sabia.

 

            O Sol de sua vida, sua filha, não brilhara mais do seu lado. Para ele, sua esposa desconhecia a Dó, deixando nele o vácuo, o nada dentro de Si. Seja onde estivesse a felicidade, Lá ou em qualquer lugar, Lázaro sabia que, sozinho, não pudera alcançar. Mas olhando o pássaro, ele sabia que a maior ato de um pai ele podia fazer. Bastava se levantar.

 

Termina em 15 de março

 


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas

Ora, por que?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porquês. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Por isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porquês, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porquê.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porquês. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porquê. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porquê.

Quem

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

O que é Haikai?

O haicai é um pequeno poema composto por três versos, surgido no Japão do século XVI. Na escrita do poema em português, aceita-se de 17 à 21 sílabas.

O que passou…

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tiago.ribeiros@terra.com.br