Arquivo para fevereiro \27\UTC 2009

   

   Pra bom agricultor,

         meia pá lavra.

              Pra se sentir amor,

       duas só palavras.

 

              Acredito em tudo,

                 depois qu’um surdo,

            der ouvidos a um mudo.

Lázaro e o pássaro
(Continuação deste link aqui)

 

 

            Chiiit… bico calado: ninguém sabe mas, a esposa de Lázaro que inda nem sei se é, já foi moça de dormir no meu quarto. Isso lá na mocidade, quando até montinho de mato se chamava de leito. Eu inda moço. Ela dum jeito mais vivida, panca de mulherão em joviais vinte primaveras floridas. Ah, era também como se fosse flor, cheirosa, cheia dos dengos, mas madura e pouco beijoqueira. Recatada. Não qu’eu inda a queira, isso é besteira. Mas a essas horas, só me vem as melhores lembranças, pois tenho direito, oras… E dela voltar, não guardo esperanças. Então, de nossas peraltices melhor digo noutro dia. Hoje, é sobre seu outro ex-esposo, Lázaro, essa meia prosa e meia poesia. A minha já disse: fica pr’outro dia.

 

            Da janela que o via, não se ouvia outro tagarelar se não o daquele tal passarinho. Lázaro gostava do canto, apesar de no entanto não ter a quem contar. Se aproximava da gaiola a passo manso, nas pontas da unhas dos pés se preciso, para não assustar o bicho arisco. E chegava perto, pertinho, pertíssimo, vislumbrando as cores das asas coloridas. Um amarelo cor de gema corria da cabeça ao rabo penoso. Um raio de sol tem quem diria sobre aquele filete amarelado. Por outro lado, as asas brancas, há quem confundira com as nuvens se voasse. Mas na jaula, parado, não me assombra quem dissesse de suas asas um céu nublado.

 

            Mas seu cantar em tempo algum era tristonho. Quisera eu saber assoviar para mostrar a formosura daqueles sibilos, canções líricas sem rimas: notas uníssonas. E eram pelas manhãs que se pareciam de maior boniteza. À tarde, aquele poema sonoro não era de muito esmero. Mas não posso lhe queixar. Hóspede do cárcere, o pássaro, mesmo enclausurado, cantara, cantara e cantara. Seria tara do instinto? Indeciso, prefiro terminar a história de Lázaro que prometi e acabar logo com isso.

 

Continua em 5 de março.

Aos lobos

 

Dentes atrozes se rangem,

De vorazes, cruéis, fiéis caninos,
Entes de espécies de dantes,

Dilaceradores de couros felinos.

 

E seus gritos à calada da noite,

Au, au, au… ecoam de precipícios,

Pudera ser dor visceral de açoites?

Não, não e não… cantos de suplícios.

 

Os restos dividem entre abutres

Até que o podre, seco, vire vazio

Mas em fila com marchas fúnebres

Felicitam desjejum em uivos sombrios.

 

E magros até que se vejam as costelas,

Lobos da fome vácua, pungente,

São assassinos da própria alcatéia,

Se não comedores de outra gente.

Procura

 

Na excrescência dum sepulcro aterro,

Cavaste o teu deitar de descanso,

Para o sono dum eterno desassossego,

Na incandescência de outro plano.

 

E caíste abaixo da terra, da lama,

Sobre os espetos que dizem nos livros

Ardente entre claras chamas

Quando disse em teu ouvido:

 

Procuras, mas não te vá,

Veja, seja verão ou inverno,

Calor mórbido de lá,

É hoje teu sórdido inferno, inferno e inferno!

 

 

(Inspirada na obra Broquéis do poeta catarinense Cruz e Souza)

 

 

 

 

Lázaro e o pássaro

 

             Disso eu bem sei, talvez: o dia de Lázaro mais uma vez amanhecera como ontem. Transeunte entre o quarto, cozinha, sala e garagem, ele repetira a mesma vassalagem sem obrigação. Fez café preto no coador deslavado, ligou o televisor velho e negro e sentou-se, zapeando pelos mesmos canais de todos os dias. Quando o eletrônico vitral, vital, o enjoava, Lázaro da poltrona se levantava e, deixando ali a quentura das nádegas, calçava os chinelos de pano surrado frente à porta. Seu caminhar, uma marcha torta pelos anos que passara mais sentado que ereto, o levava de dentro do casebrinho até fora.

 

            Mas fora, quem via, espirrava água do rosto a choramingar por dó. No teto da garagem, telhas malechas exibiam frestas que, como estas, grande só vi em racho de paiol. Um restolho de palha sobre o chão pudera ser os remendos do telhado mas, que nada, que nada: fiapos do ninho que alí morava um passarinho.

 

            Por alí, Lázaro alimentava seu cantador matutino, sem nome mesmo, um passarinho. Dentro da gaiola, ou castelo escuro, era capaz de assoviar de lá à sol mesmo em dias turvos. Mas, sobre o canto do pássaro, abafado, escondia-se o desencanto que fazia Lázaro pensar sobre seu estado de um homem sozinho e desamado. Seu olhar ingênuo, sob os fios esbranquiçados da sobrancelha, escondia passados incertos, desconexos e inversos a versos perfeitos de amor e poesia. Nem Camões e seu amor, nunca entenderiam. Eu, vizinho de portão, é quem sabia.

 

            A esposa fora embora de casa coberta de razão. Sem deixar a Lázaro o carro da família, a pão e farinha, ela prometera não voltar.  Suas manchas roxas, nas costas, nas coxas, poderiam se camuflar entre um campo de violetas: eram marcas que Lázaro deixara no corpo da esposa depois do primeiro e único ano de casado. O álcool lhe fazia macho, digno dos culhões entre as pernas, espaço aberto de para sua violência liberta. A mulher levara consigo sua filha, só sua, escondendo da inocência a mazela de ser fruto de pai desmerecido duma família.

           

            Mais uma vez o dia se repetia como ontem, anteontem. O amanhã como as lembranças de Lázaro de hoje, assim igual estes fatos que, como eu conto, peça aos vizinhos a mesma história que eles te contem. Mas, por ser eu o mais chegado nesse caso, não é por acaso: a história de Lazáro, melhor que eu, não há contador que conte.

           
            E que fique em segredo: continuo em 25 de fevereiro.

       
À tarde,

            disse a tempestade,

                                            ao ar:

                             só deixo de lamúrias

                                  se um beijo, às escuras,

                            o sol vier me dar.


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas

Ora, por que?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porquês. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Por isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porquês, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porquê.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porquês. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porquê. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porquê.

Quem

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

O que é Haikai?

O haicai é um pequeno poema composto por três versos, surgido no Japão do século XVI. Na escrita do poema em português, aceita-se de 17 à 21 sílabas.

O que passou…

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